samedi 27 novembre 2010

©Jacques Villeglé

Ao correr para apanhar um táxi, o vento empurrou aos seus pés um pedaço de cartaz lacerado, anuncio de um concerto qualquer na cidade onde se encontrava.

‘Les jeux sont faits " pensou ele. Era evidente. Nápoles e Lisboa, dois labirintos impenetráveis, e tanto uma como outra , duas cidades hábeis em questões de estragos. Pouco importa se era sequência de propaganda ou de publicidade . As suas imagens assemelham-se a estes pedaços de belos cartazes agora lacerados.

Deu a volta à chave, entrou. No quarto, o silêncio. Na penumbra adivinhava as obras expostas. John Giorno, Françoise Janicot, Bernard Heidsick, Jean Jacques Lebel, Paul Armand Gette, Paolo Stampa, Michel Iodice, Joel Ducorroy Giuseppe Zevola... e quantos outros. Os livros. O caixão. Que estranho este caixão transparente e tudo o que lá esta dentro. Que historia tão surpreendente.


Dez anos. Dez anos, sem nunca ter cruzado ninguém, sem nunca aparecer a um qualquer encontro marcado. Dez anos ignorando todos os ‘rendez-vous’.

Ela também conhecia alguém assim em Lisboa, "Un apprenti séducteur". Não te chega ao calcanhar, tinha-lhe dito. Não tem a tua classe.

Un Mythe dans la Ville...a projecção da véspera , de Jacques Villeglé .
Nunca titulo veio tanto a calhar. Dez anos. Dez anos que viram aqui passar milhares de pessoas. Fascinados que estavam com a cidade e este sitio único inventado no centro da parte antiga da cidade gréco romana muitos escreveram artigos, outros livros e ainda outros fizeram filmes. Quando não era desenhar, pintar ou fotografar


É tempo de fechar a casa.
Levantou-se, pegou num postal e escreveu -


O Purgatório fechará as portas no dia 31 Outubro 2011

Até lá, a casa continuaria aberta. Para os que contribuíram de uma maneira ou de outra à historia e para os outros, curiosos de viver a experiência. Ele, ele continuará no desencontro.


(texto inicialmente publicado na Pensão Lisbonense)

mercredi 13 octobre 2010

For Your Lover Give Some Time por Richard Hawley

For Your Lover Give Some Time por Richard Hawley

Hoje acordei aqui

Se existe uma coisa que muitos partilhamos, é estarmos fartos de continuar a andar na mesma direcção. Quantos e quantos não desceríamos do comboio, ao compreender que ele não vai para onde estavamos à espera que ele chegasse.
E então começamos a sonhar. Uns, com um algures. Fugir. Fugir o mais longe possível do nosso planeta maldito. Desejar a Lua impossível de abraçar. Outros, cansados de atirarem de novo o corpo devoluto para a vida de todos os dias, deixam-se ir, lentamente, entre muros de lençóis brancos fazendo pouco da arena da vida que os rodeia.
Depois há os outros, os que encontraram a porta de saída. Saltaram, e viajaram ao mais profundo de seus passados até encontrarem aquele sentido à deriva , o sublime, o sacro. Momentos luminosos esses que como crianças as mãos cheias de rebuçados, os guardam, às escondidas. Outros ainda, alimentam-se do mundo que os rodeia. E sugam tudo a que eles vem, para o triturarem e transformarem-no como por magia, em fascinação.
O postal que ela ainda segurava nas mãos, uma alma do Purgatório, agradou-lhe. R.K. Duas iniciais como tantas outras. Quem a convidava?
Há dias em que não vale a pena compreender.
Nápoles. Sim ela gostava de Nápoles, pela sua beleza. Pelos seus excessos. Excesso de ruído, de mistério, de vida! de violência. Excesso de loucura.
Fez as malas. Que arriscava? Nada tinha a perder.
Laura abriu-lhe as portas do Palazzo Marigliano, o Albergo del Purgatorio e remeteu-lhe um envelope da parte do proprietário - Robert Kaplan.
Não, Laura não se lembrava de alguma vez o ter cruzado, e deixou-lhe as chaves.
“Fica o tempo que desejares. Até ao meu regresso se essa for a tua vontade. Eu, estou a caminho de Sintra, ao volante de uma Chevrolet.”

oeuvres de ©John Giorno, Albergo del Purgatorio
photo©MariaDeMorais

(texto inicialmente publicado na Pensão Lisbonense)