dimanche 23 janvier 2011
samedi 22 janvier 2011
vendredi 14 janvier 2011
EXTASES
Raramente podemos ver as obras de Ernest Pignon- Ernest, como geralmente imaginamos, isto é , expostas numa galeria. Obras, para a maior parte delas efémeras, que dispostas aqui e ali nas esquinas das ruas, abandonam-se ao nosso olhar e oferecem-nos uma estranha beleza até desaparecerem rasgadas ou desfeitas pelas intempéries, quando não são cobertas por cartazes publicitários. Restam-nos então as fotografias e os desenhos preparatórios.
Para Ernest Pignon –Ernest luz, cor e espaço são tão importantes como o invisível: a Historia. e as memorias enterradas. A obra nasce do e no sitio onde o artista a inseriu, fazendo daquele lugar um espaço visual, revelando , perturbando e elevando o seu simbolismo.
Foi assim que aconteceu em Nápoles. Ao inspirar-se da obra de Caravaggio, que viveu nesta cidade poucos meses antes de morrer gravemente ferido numa rixa, Ernest Pignon- Ernest, faz eco ao povo napolitano, à sua miséria e violência. As obras sobre papel, desenho ou serigrafias, e sempre a preto e branco, eram coladas entre cartazes lacerados, sobre portas condenadas ou paredes sem janelas. Marcadas pelos acidentes e a memoria da parede, longe de se confundirem no suporte, os desenhos mais perto de uma perfeição académica que de um modernismo ou grafismo de rua, apresentam-se como um trompe l’oeil, por vezes abrindo uma porta ou uma janela ilusória, outras vezes um respiradouro rente ao passeio. Utilizando uma técnica próxima da anamorphose pouco importa de que lado avenha o nosso olhar, temos sempre a impressão de a descobrimos pelo ângulo principal Desmaterializando assim a espessura do suporte temos a sensação de um passado emergente.
Foi precisamente durante esta intervenção em Nápoles, que um poema de Nerval conjuntamente com leituras dos “Exercícios espirituais” de Inácio de Loyola e de S. João da Cruz, levaram Ernest Pignon-Ernest a iniciar, com toda a liberdade de artista, um dialogo com as grandes figuras místicas que são Maria Madalena, Teresa d’Avila, Hildegarde de Bingen, Angèle de Foligno, Catherine de Sienne, Marie de l’Incarnation.
Este dialogo já dura há quase vinte anos.
Tudo começa com um questionamento, uma fascinação. Uma vertigem também, que só arrebata aqueles que desejam evocar, pensar, compreender e representar um fenómeno tão perturbante, tão desconcertante e tão insensato que é o êxtase.
Tentar o impossível, na orbe destas mulheres espantosas e escandalosas, primeiro tomadas por loucas para depois, serem beatificadas ou santificadas.
Mas como representar o invisível? Como representar a carne que só aspira a descarnação? Como apreender a luz e as sombras, os suspiros os gritos e as dores de experiências inexplicáveis? Como traçar e materializar tais transportes, tanto excesso tantas efracções sublimadas?
Sete enormes folhas brancas, onde o traço do carvão, inspirado pelos textos deixadas pelas próprias místicas, veio se inscrever com uma extrema intensidade, criando tensão e conflito. Resultado de um longo e doloroso trabalho durante anos de desenhos e colaboração com a dançarina Bernice Coppieters.
Se na época barroca, Bernini *ou qualquer outro escultor , guarneciam os corpos estáticos numa abundância de plissados onde o tecido era a expressão. Ernest Pignon-Ernest despe - os e observa a dor. “ dor espiritual e não corporal, mesmo se o corpo não se esqueceu de participar e por bastante”como escreveu Santa Teresa d’Avila
Expostas pela primeira vez em Avignon, na Capela Saint-Charles, é na capela do antigo Convento das Carmelitas de Saint Denis, às portas de Paris, que Ernest Pignon -Ernest, instalou de novo sete tiragens numéricas destes desenhos. Numa dramaturgia sumptuosa, as imagens entregam-se, parecem levitar. Coladas sobre folhas de alumínio, as quais o artista deu forma curvando-as criando assim zonas de sombra que acentuam as poses de sofrimento, as expressões de loucura ou de beatitude, que se multiplicam ao reflectir no abismo da escuridão de um espelho de agua.
Não há duvida, estas mulheres perderam o espírito, mas unicamente para se unirem ao Espírito.
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*Santa Teresa d’Avila, Capela Cornaro,
imagens©Ernest Pignon-Ernest
jeudi 30 décembre 2010
vendredi 24 décembre 2010
jeudi 23 décembre 2010
samedi 27 novembre 2010
©Jacques VillegléAo correr para apanhar um táxi, o vento empurrou aos seus pés um pedaço de cartaz lacerado, anuncio de um concerto qualquer na cidade onde se encontrava.
‘Les jeux sont faits " pensou ele. Era evidente. Nápoles e Lisboa, dois labirintos impenetráveis, e tanto uma como outra , duas cidades hábeis em questões de estragos. Pouco importa se era sequência de propaganda ou de publicidade . As suas imagens assemelham-se a estes pedaços de belos cartazes agora lacerados.
Deu a volta à chave, entrou. No quarto, o silêncio. Na penumbra adivinhava as obras expostas. John Giorno, Françoise Janicot, Bernard Heidsick, Jean Jacques Lebel, Paul Armand Gette, Paolo Stampa, Michel Iodice, Joel Ducorroy Giuseppe Zevola... e quantos outros. Os livros. O caixão. Que estranho este caixão transparente e tudo o que lá esta dentro. Que historia tão surpreendente.
Dez anos. Dez anos, sem nunca ter cruzado ninguém, sem nunca aparecer a um qualquer encontro marcado. Dez anos ignorando todos os ‘rendez-vous’.
Ela também conhecia alguém assim em Lisboa, "Un apprenti séducteur". Não te chega ao calcanhar, tinha-lhe dito. Não tem a tua classe.
Un Mythe dans la Ville...a projecção da véspera , de Jacques Villeglé .
Nunca titulo veio tanto a calhar. Dez anos. Dez anos que viram aqui passar milhares de pessoas. Fascinados que estavam com a cidade e este sitio único inventado no centro da parte antiga da cidade gréco romana muitos escreveram artigos, outros livros e ainda outros fizeram filmes. Quando não era desenhar, pintar ou fotografar
É tempo de fechar a casa.
Levantou-se, pegou num postal e escreveu -
O Purgatório fechará as portas no dia 31 Outubro 2011
Até lá, a casa continuaria aberta. Para os que contribuíram de uma maneira ou de outra à historia e para os outros, curiosos de viver a experiência. Ele, ele continuará no desencontro.
(texto inicialmente publicado na Pensão Lisbonense)




